Escritos do Cláudio

Não importa quem sou .Importante sim, de que me sujo.

Textos


NÃO DUVIDE DE NADA

Outono
Bendito outono
Outono
Maldito outono
Não estou acordado
Nem repousado no sono.

 
Não tem jeito. Outono me deixa sem inspiração. Veja que hoje é dia de Tiradentes. De quantas coisas eu poderia estar falando? Mas não. Não tenho nada para dizer.
 
Nem na prosa e nem nos poemas, nada sai. Eu tento uma cronicazinha e nada mesmo.
           
Olho pela minha janela. O meu pai passa com o peso de todos os outonos já vividos e de tantas construções nos ombros. Sorridente e sabedor de que na viola ele manda bem. Eu diante da tela em branco. Nem folha de papel. Espremo meus escassos neurônios e não consigo extrair uma xícara de texto deste outono.
 
Uma pessoa que conheço está falando de primavera. Ela gosta muito da ilha da Madeira e lá é primavera. Eu não sei se ela está em domínios portugueses fisicamente, mas sei que Madeira não sai de dentro dela. Então sigo com minha puta agonia de não ter o que escrever. Meus dedos tremem, mas eu os domino. Era besteira o que eles estavam prestes digitar.
 
Dou um suspiro, levanto-me, vou até a cozinha e pego uma xícara de café, sem açúcar ou qualquer outro adoçante, como eu gosto, e vou bebericando devagar. Café é a única coisa que bebo do mesmo jeito em qualquer estação. É minha única regalia que o outono não interfere. Bebo como quem degusta um belo poema. Nem quente, nem frio. E o café não me deixa dormir. Mas este outono vazio não me deixa acordar.
 
A viagem para Ouro Preto, a Vila Rica do tempo dos inconfidentes, vai ficando para depois. A pandemia restringe meu espírito de aventura. Esta vontade de ganhar o mundo, ver campos verdejantes e cidades monumentais. Inserir-me na história que até então não me pertencia, como J. Pinto Fernandes. Mas só inserir. Não quero me casar com quem não amava ninguém.
 
Outono e pandemia combinados é dose para leão. Eu espero o inverno que é o último passo para a primavera. Enquanto inverno não temos, vamos de outono neste ferido obscuro em que temo ir até mesmo a Colatina visitar alguém queridíssimo. O Sarau dos Poetas Inconfidentes não aconteceu. Mas o sonho segue. Talvez um grupo dos Poetas Inconfidentes do Leste. Acho que vai ficar legal. Algo a ver com os Sertões do Leste, um tema histórico que me encanta. Algo a ver com os campos verdejantes e a vida simples, bucólica, de uma Arcádia que está dentro de cada mineiro.
 
Costa, Gonzaga, Peixoto e Heliodora, a Bárbara. Nomes que me consolam em um outono traidor como o coronelzinho.
 
Só falta alguém dizer que a Inconfidência Mineira era um movimento para implantar o comunismo. Alegar que foi encontrado um exemplar de O Capital na casa do alferes dentista. Dúvida? Não duvide de nada no outono.


FONTE DA IMAGEM: santhatela.com.br/ Thomas Cole: Sonho de Arcádia (1838), 
Cláudio Antonio Mendes
Enviado por Cláudio Antonio Mendes em 21/04/2021
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