Escritos do Cláudio

Não importa quem sou .Importante sim, de que me sujo.

Textos


     A PROFESSORA DO PRIMÁRIO

     Eu havia conseguido um emprego de professora de primário em uma escola bem distante da cidadezinha que me acolheu. Foi graças a um rapaz de meia idade que paquerei que conversou com um amigo que era amigo de um vereador. Comprei uma bicicleta já velha para me deslocar da casa onde eu ficaria hospedada até a velha escolinha que atendia 23 crianças da localidade, muitas delas eram irmãs ou primas entre si. Coisas do interior do interior de um estado tão grande como Minas Gerais.
            Mas naquele canto de mundo uma coisa me assombrava. Uma casa velha que tinha sido a primeira a ser construída por aquelas bandas. Diziam que a fazenda abandonada por aqueles que a herdaram não despertava interesse em ninguém de morar nela. A mim também não despertava interesse, mas medo.
            Toda manhã quando eu passava diante dela para ir trabalhar na escolinha, alguma coisa de estranho acontecia. Primeiro comecei a ouvir gritos. Eram gritos altos, gritos de dor. Eu não diferenciava se era de alguém moribundo agonizando diante dos dentes da morte ou sendo torturado. Depois vieram os pedidos de socorro, sempre gritavam.
            Certo dia, na companhia de uma mulher da localidade, eu percebi que somente eu ouvia tais sons. Perguntei para ela se ela também ouvia, mas ela me disse que não. Achei melhor não revelar que todo dia aqueles sons chegavam até a mim.
            A partir daí aquelas vozes estranhas não somente me pediam socorro, como me chamavam pelo nome. Eu pedalava mais rápido. Houve até a infelicidade da corrente da bicicleta sair bem em frente ao casarão e nesse dia foi mais terrível. Eu sequer consegui trabalhar direito. As vozes ecoavam em minha cabeça. Em certo momento cheguei a desmaiar dentro da sala de aula. A serviçal me trouxe de volta usando um vidro de álcool com algum raminho dentro.
            A coisa foi se complicando quando a casa passou a se transformar em rosto de algum demônio que não sei descrever. Foi ficando a cada dia mais insano. Se eu contasse para alguém da localidade iriam rir de mim. Criei coragem um dia e perguntei se havia alguma casa mal-assombrada no local, eles acharam a minha indagação curiosa. Disseram que não. O fato das famílias serem todas religiosas afastava os maus espíritos.
            Assustador mesmo foi quando deparei com o demônio dentro de uma matinha antes de chegar à escola. Ele estava lá com aqueles olhos enormes e chifres pontiagudos. Encarou-me, abaixou a cabeça e partiu para cima. Joguei a bicicleta de um lado e adentrei na mata. Olhei para trás e o miserento já tinha se evaporado. Mais a frente um senhor me perguntou se eu não havia encontrado com alguma vaca na estrada. Uma das cabeças de gado dele tinha fugido. Respondi que não, eu só tinha encontrado um demônio. Ele esconjurou, benzeu-se. Percebi pelo olhar dele que ele me achou estranha.
            Três dias depois parei de trabalhar na escola. O pessoal do manicômio, do qual eu era foragida, me localizou.

Fonte da imagem: 
https://meiooeste.blogspot.com/2014/06/velho-casarao.html.

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Cláudio Antonio Mendes
Enviado por Cláudio Antonio Mendes em 04/01/2021
Alterado em 04/01/2021
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