Escritos do Cláudio

Não importa quem sou .Importante sim, de que me sujo.

Textos



ASSIM QUE O SOL MUDA DE LADO
 
     Enquanto ela abria a porteira viu o seu cachorro retornar depois de dois dias sumido. O animalzinho estava machucado, faminto e sedento. Tentou pular nos braços dela que se desviou para que ele não lhe sujasse o uniforme escolar. Dentro de minutos o ônibus surgiria e ela não podia perder aula hoje. Tinha avaliação de Geografia e temia perder média no bimestre.

            Naquele dia o ônibus atrasou-se um pouco. Não era o Josias, o motorista rotineiro, um dos rapazes que trabalhava para a pequena empresa que fazia o transporte escolar naquela região. O motorista novo talvez não conhecesse o itinerário, por isso o atraso.

            Guarito abanou o rabo e entendeu a precaução da dona. Ele ficaria por ali, perto da porteira, esperando-a voltar. Demoraria muito. O sol já teria mudado de lado. Mas ele, mesmo faminto, machucado e sedento, aguardaria até que o rosto da adolescente, com traços de menina, surgisse assoviando no alto do morrinho que descia para sua casa.

            Os pais dela não o tratavam com a mesma atenção que Paty. Ele era dela desde pequenininho, desde que se entendeu por cachorro. Ela o alimentava, o acariciava. Cresceram muito nos últimos anos. Ele observou as mudanças anatômicas que fazia dela uma garota bonita e forte. Ela sabia que ele cresceria também.

            A mãe de Paty estava cuidando da horta e o pai tirando uma moto da garagem. Ele irá a algum lugar longe. Uma moita próxima se mexeu e Guarito se assustou. Latiu, mas o homem bruto mandou que ele se calasse. Assim que o sitiante deu as costas, levou um tiro que lhe fez cair. Da moita surgiu um cara todo encapuzado que lhe disparou mais dois tiros. Guarito tentou acuar o assassino. Mas não teve jeito.

            No seu ataque ao encapuzado, Guarito arrancou um adorno em uma das botas dele e o manteve entre seus dentes.

            Uma hora depois Paty chegou de carro com a polícia que veio periciar o assassinato. Ela estava em choque. Guarito que havia se perdido na caça a um tatu, acabou brigando com dois cães grandes da vizinhança, e não se importaria de ficar mais um dia faminto. A dor da sua dona estava sendo maior que a sua.

            Ele foi até a um canto do terreiro e cavou um pequeno buraco. Enterrou ali o adorno que tinha arrancado.

            Uma semana após o velório do pai de sua dona, ele a viu triste.  Foi até o local onde estava a estrela de metal, cavou com as mãos e a levou até a garota tristonha. Ela estranhou a atitude do seu animalzinho de estimação, mas haveria alguma razão para que ele insistisse em lhe entregar aquele objeto. Pegou e guardou em seu quarto.

            A vida precisava retornar. A ausência de seu pai lhe pesava no coração. Tudo lembrava o homem bruto que ela estimava muito. Era o jeito dele e do jeito dele ele certamente a amava. Um tio solteirão veio morar com as duas mulheres e assumiu a condução dos negócios, auxiliando a irmã.

            Ela voltou a estudar. Queria ser psicóloga. Focou mais ainda nas lições. Todo dia caminhava até a estrada principal e pegava o ônibus.

            Quatro meses após a trágica manhã, ela estava sentada em um dos bancos da frente, pensativa. Enfrentaria novamente uma prova de geografia. Seus olhos se fixaram nas botas de Josias que dirigia com atenção na estrada poeirenta e sinuosa. Após a próxima curva o ônibus atravessaria uma ponte estreita sobre o caudaloso rio que estava cheio devido às chuvas dos últimos dias. Ela lembrou-se da estrela de metal que Guarito havia lhe entregado uma semana após o falecimento.

            Ela abriu sua mochila e pegou um estilete que era usado para apontar lápis. Assim que o ônibus curvou para entrar na ponte, ela avançou sobre o pescoço do motorista e o golpeou fundo. O sangue começou a esguichar e, falecendo, perdeu a direção do coletivo. Ela e outros colegas conseguiram se salvar do afogamento. Outros não.

            Seu tio que estava indo para a cidade, pegou na estrada correndo de volta para casa por medo dos colegas e da polícia.

            Todo início de tarde, assim que o sol muda de lado, Guarito fica próximo da porteira à espera de sua dona que está escondida com seu tio em algum lugar desse mundo que ele imagina ser grande demais para suas patinhas.
           

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A CONDENAÇÃO DO PISTOLEIRO
 
Cláudio Antonio Mendes
Enviado por Cláudio Antonio Mendes em 19/06/2019
Alterado em 30/06/2019
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