Escritos do Cláudio

Não importa quem sou .Importante sim, de que me sujo.

Textos

A ARMA - DTRL 33
Depois daquela cantada me convidando para uma cerveja após o turno, a minha vida, e também a minha morte, virou um terror.

A princípio achei sensacional ter sido cortejado por uma moça formosa de olhos verdes em um carrão tão chique. Eu que vim do sertão ainda menino, acabei como frentista naquele posto de BR. Não tinha dinheiro e muito menos atrativos físicos que justificasse o interesse dela por mim.

Primeiro fui dopado metaforicamente, depois, literalmente. Acordei em uma pequena latrina escura, amarrado em uma cadeira fixa ao piso.  Quando o ambiente ficou claro vi algumas câmeras policiando o recinto como num Big Brother e, em minha frente, uma mulher sentada no vaso sanitário que também acordava. Os olhos dela se arregalaram ao deparar-se com o meu rosto.

Percebi que a senhora, presa nesse pequeno espaço juntamente comigo, sentia-se diante de um fantasma ou da própria morte, começou a tremer, a suar, a se encolher em um canto como se quisesse ficar o mais distante possível de mim. Tentei perguntar o que ela estava sentindo. Mas o que saiu da sua boca foi um grito de horror e um estridente não como se eu estivesse fazendo-lhe algum mal. Notei que ela buscava ar para respirar e sentia-se sufocada.

Ela começou a se estrebuchar pelo chão encardido da latrina. A vida se esvaia do corpo dela como brilho abandonando uma coroa real. Eu sabia que alguém assistia pelas câmeras o nosso momento de pavor. Creio eu que, possivelmente, a moça que me seduziu, e algum comparsa, estavam se deleitando vendo a mulher morrer diante dos meus olhos incrédulos.

Minutos depois as luzes se apagaram e duas pessoas entraram no cativeiro. Eu fui novamente dopado. Quando meus sentidos retornaram, eu estava encontrando a minha morte dentro do porta-malas de um velho carro se afundando em uma represa qualquer.

Agora morto, passei a entender o que aconteceu. A moça era secretária e amante do marido da mulher que faleceu diante dos meus olhos. Aquela senhora toda orgulhosa, naquela privada, tinha unatractifobia. Foi isso que uma dessas vozes misteriosas que nos fala depois da morte me explicou. Minha feiura foi usada como arma. Antes eu era espoleta que só fazia zoeira, agora sou faca que mata. Minha presença esquartejou a alma da pobre senhora para que seu seguro de vida viesse bancar seu marido com a amante.

Certa manhã, meses depois, a minha assassina ao acordar, viu o gesso do teto de seu quarto borbulhando. Ela não tinha como evitar mais um delírio. Entre as borbulhas meu rosto se formou. Ela levou as mãos ao pescoço na tentativa de, sem sucesso, se enforcar. Com suas unhas, enormes e felinas, feriu sua pele profundamente. Não teve jeito, o seu amante a internou no sanatório.

Em seu novo tratamento, ela seguia sendo torturada pela imagem da minha face, não importando onde estivesse e para que lado olhasse. Na primeira oportunidade ela pegou uma tesoura e assassinou o verde dos seus olhos.

TEMA: Unatractifobia
Cláudio Antonio Mendes
Enviado por Cláudio Antonio Mendes em 21/03/2019
Alterado em 21/03/2019
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