Escritos do Cláudio

Não importa quem sou .Importante sim, de que me sujo.

Textos


O QUE ELA NÃO SABIA
 
Ela decidiu não mandar nenhuma mensagem pelo WattsApp. Poderia ser pelo e-mail ou outra forma de comunicação atual. Mas pensou na moda antiga. Uma carta de papel e tinta. Caneta azul e a velha folha do caderno de quando estudava.

Não pediria ninguém para entregar sua missiva. Tinha o correio. Seria romântico. Enviaria pelo correio e esperaria que ele mandasse a resposta utilizando-se do mesmo mecanismo. Era assim há trinta anos quando seu pai se correspondia com sua mãe que morava em Vitória. Telefone era coisa de classe alta. Era caro. Falava-se pouco. A sua mãe guardava até hoje as cartas enviadas pelo ajudante de pedreiro que a encantara em uma de suas vindas a Mutum. A moça que ajudava a mãe a vender perfumes e cosméticos através de revistas na capital capixaba quis fugir da fadiga urbana. Casou-se e veio se acomodar nos ares puros do interior de Minas Gerais.

Na construção do maior hotel da pequena cidade, o pai caiu do terceiro andar. Um escorregão apenas e a vida dele se espatifou na calçada. A dela agora agonizava de saudade dele e com a depressão da mãe, fazendo com que o rompimento do namoro com o rapaz de olhos castanhos claros da rua de cima fosse o menor dos seus problemas.

Ela começou a se lembrar, sentada ouvindo o radinho de pilha do pai, de como conheceu o destinatário da carta. Removeu com a pele ressecada do braço direito as primeiras lágrimas daquela tarde. Respirou fundo e foi ao correio. O carimbo do atendente foi como um desfibrilador fazendo seu coração voltar a bater no ritmo da felicidade.

Ilusão pura. O que ela esperava com aquele gesto no mínimo curioso? Ele acharia romântico receber uma carta de amor pelo correio. Ela não quis ser dramática, mas precisava dizer com contundência que precisava dele de voltar. Precisava desesperadamente dos seus abraços e daquele carinho revigorante. Ela estava disposta a perdoar. Foi ciúme. Ela não suportou vê-lo tocando os braços da concorrente como se quisesse atirar-se contra ela e beijar seus lábios.

Ele poderia achar ridículo e zombar dela pela vida toda. Poderia achar interessante. Mas não se render ao seu pedido de desculpa. Ela esperava que ele achasse inusitado e romântico. Voltaria para ela e em breve se casariam. Precisava casar. Quem sabe o matrimônio a faria esquecer um pouco a lembrança do pai e tiraria a mãe das garras avassaladoras da depressão. Tentava tomar sua dose diária de entusiasmo diante do balcão do correio. O atendente cobrou e chamou o próximo. Ela parecia não querer sair dali. Mas lá fora o resto do dia a esperava para chicoteá-la com a rotina pouco florida.

Toda vez que via ao longe alguém de camisa amarela pensava que era o correio, ela chegava ao portal. Não conseguia encontrar o seu ex-namorado ao acaso na rua. Chegou a sonhar com o reencontro por três na última semana. Ele certamente já tinha recebido a carta. Por que não respondia? Descaso. Isso só pode ser menosprezo. Foi dando vazão a uma melancolia sorrateira que anoitecia seu coração. A mãe piorava a cada dia. Não queria sair de casa. Ela também. Viviam as duas ocupando o tempo com pequenos afazeres. Letargia. A comida estava insonsa e a casa mal cuidada. As aranhas iam tomando conta dos cantos.

A tarde de quarta-feira e o sol morno. Ela à janela. Ao longe alguém e amarelo. E mais uma vez não era o correio. Era um rapaz interessante. Uma oportunidade de começar um novo romance. Os olhos castanhos da rua de cima não foram vistos mais. Talvez tivessem mudados para outra cidade. Não reagiram à sua carta, nem para tirar um sarro. Esse silêncio já durava três semanas. Tempo suficiente. Havia algo que ela não conseguia saber o que era.

Ela não sabia mesmo. Não assistia tevê e nem buscava sites de notícia em seu celular. Vivia alheia aos fatos que faziam a história do seu país ser tão complexa e contraditória. Ninguém lhe falou que no dia seguinte ao que ela postou a carta, os funcionários do correio entraram em greve contra a privatização da empresa.
Cláudio Antonio Mendes
Enviado por Cláudio Antonio Mendes em 15/12/2018
Alterado em 15/12/2018
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