Escritos do Cláudio

Não importa quem sou .Importante sim, de que me sujo.

Textos



NÃO FOI POR CAUSA DA CRISE
 
         Tarde de sábado chuvosa na barbearia. Um homem inquieto chega com seu filho. Pai e filho juntos, coisa rara em tempos líquidos. Mas os barbeiros também pai e filho amargavam o dia de pouca freguesia . Certa vez o pai falou da intenção de fazer o filho seguir o ofício. Certa vez o filho falou das dificuldades de seguir o oficio do pai. Mas os dois estavam lá ganhando seus trocados na tarde de um sábado choroso.
         O garoto que chegou, quase de mão dada ao pai, gostava de cortar seu cabelo com o filho do barbeiro. O rapaz que já era pai também. Nas aventuras da vida, se empaternou.
         Conversar diversas para fazer o tempo passar. O sábado seguia chorando o fim do ano cada dia mais próximo. Sobre política quase nada. Vivemos um tempo de não-política. Tempos estranhos. como diria um supremo de toga. Eu percebo que o tempo tem ficado mesmo estranho. E a gente que trabalha, trabalha, e trabalha, ficando cada vez mais sem tempo de escrever uma pequena crônica.
         Outro cliente espera. Chega a vez do adolescente que senta com ressalva na cadeira. O menino que ser homem. Quer imitar o pai, mas acha difícil certas coisas próprias de homem. A crise brava, o cabelo precisando cortar. Pega-se a última cédula de cem reais na gaveta. A esposa certamente lhe ofereceu dinheiro. Mas ele prefere gastar da sua. Amanhã alguns trocados deverão ser sacrificados no Dia do Senhor. Domingo é sempre dia de sacrificar algum dinheiro para uma ceia mais gorda. Frango assado, maionese, macarronada, farofa, algo assim. E tem também as bebidas. Mas o homem que levou o filho para cortar cabelo parece não ter o hábito de beber. Ele é meio aéreo, parece aqueles homens que gostam de refletir. O menino também aéreo, genética? Talvez sim, talvez não. Talvez seja desses meninos que passam horas em frente ao computador.
         Começa o corte do filho com o filho do barbeiro. E lá se vai as conversas, a distração, a chuvinha insistente, a gripe que o bendito pai pegou por sair na chuva com o filho.
         Chega um sujeito estranho na porta do salão, ou barbearia, como queiram. Chama o barbeiro pai lá fora. Ele não vai. Então o homem, cambaleando, cabelos longos, pedindo para cortar seus cabelos que estavam lhe incomodando. O cabeleiro, barbeiro, o outro nome que se pode dar a esse ofício, recusou. “não, não posso cortar”. “Fiado, sô”. “Fiado somente até ontem.” “Você me conhece”. Silêncio.
         “Você me conhece, sô. “ “não aguento mais esses cabelos na minha orelha. Corta, sô. Você me conhece.”
         O homem magro na porta insistiu mais por alguns minutos. Depois saiu na chuva que ficara um pouco mais fina.
         O sujeito que tinha levado o filho para cortar cabelo estava com apenas oitenta reais no bolso. Antes do magricelo chegar aporta do estabelecimento, ele tinha atravessado a rua e entrado num armarinho pequeno e comprado algo para algum amigo oculto, coisas de fim de ano. Gastou em torno de vinte reais e pegou uma gripe.
         “Deve ser a crise que fez o homem cortar o fiado.” Outrora já presenciara diversas vezes o freguês pendurando a prestação de serviço. Mas não. Não era a crise financeira que afastara as  pessoas, inclusive das barbearias.
         O sujeito cambaleante já havia feito esse pedido antes. Já havia recebido a caridade do homem da barbearia que fora evangélico. Um dia disse não e foi questionado. Ele disse para um desses sujeitos que ficam pedindo dinheiro emprestado que não tinha dinheiro para emprestar. E foi questionado se era evangélico, por que negava dinheiro. Ele contou disse que ter dinheiro e ter dinheiro para emprestar são coisas diferentes.
         Certamente o sujeito já tinha gasto o que ganhara durante a semana com a marvada. E bêbado, não se lembraria de ter contraído a dívida. Então não foi pela crise, mas pela racionalidade no tocante à questão da caridade. E a chuva seguiu caindo como caridade de Deus em tempos de aquecimento global.
        
          01/12/2018
Cláudio Antonio Mendes
Enviado por Cláudio Antonio Mendes em 06/12/2018
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