Escritos do Cláudio

Não importa quem sou .Importante sim, de que me sujo.

Textos


A SECURA DO OLHO ESQUERDO
 
         As chicotadas, as bofetadas, as chineladas. Um coquetel de pancadas em uma alma cálida, feminina e agreste. Corine apanhava do pai bêbado e da mãe nervosa. Apanhava também do irmão mais velho e da garota violenta da escola. E toda surra aplicada em seu corpo a fez chorar. Chorava dos olhos para dentro e dos olhos para fora. As lágrimas eram constantes em seus olhos arregalados e sofridos. E ninguém prestava atenção ao rosto de Corine. Ninguém mesmo. Nem a infortunada da mãe. Mães sempre olham para os rostos dos filhos. Mas a mãe de Corine não teve a oportunidade de ser mãe. Paria e nunca olhava para o rosto de nenhum de seus filhos. Não dava carinho. Não recebia carinho. A mãe de Corine também tinha uma biografia de chicotadas, bofetadas e chineladas. As chineladas eram as mais mansas. Uma biografia de surras e dores. Dores no corpo e, sobretudo, dores na alma. Ela não tinha atenção ao mundo. Atenção à beleza e candura de um rosto ingênuo, não tinha percebido Corine virar mocinha. Não teve a chance de perceber que Corine, quando chorava, chorava apenas no olho direito. No esquerdo nada, nenhuma lágrima. Somente um ardor que não se sobrepunha ao choro. Ardor passageiro. O que era um ardor dentro de um mar de sofrimentos?
         Largou a escola no primeiro ano do segundo grau. Antes era assim aquele primeiro ano na escola cheio de meninos e meninas sem esperança na vida, sem sonhos. Sem ter uma réstia de futuro entrando no vão do destino. Realidade dura, escura, pesada. Nuvens fechadas sobre a tarde. A esperança era sol que nunca brilhava. Era sempre chuva. Chuva forte. Torrencial. Tempestade sem bonança. Chuva que alaga, deixando tudo enlameado. Movimentos difíceis de escorregões constantes. Nada germinava além da erva daninha. Corine foi trabalhar em casa de família. Cozinhava, lavava, faxinava, passava. Fazia o que podia. A merrequinha do fim de mês pouco ajudava. Mas ajudava mais que o nada.
         Sábado à noite, Corine moça bonita e singela. Roupa simples. Ela na pracinha da pequena cidade do interior mineiro. Ele passou com mais dois amigos. Roupa considerável. Rapaz nem tanto bonito, nem tanto feio. Rapaz apenas para se conversar. Paquerar. Quem sabe namorar alguns dias. Rapaz que passa e percebe a moça singela de roupa simples. Olha. Vê. Sorri. Correspondido, sorri de novo. Vai com os outros dois. O olhar fica cravado no olhar. O olhar se alonga, penetra na alma. Mancha o coração com algo de certeza e incerteza. Fica dentro, começa a latejar. O olhar do rapaz ficou nela e o olhar dela vai soprando, sussurrando, orientando, agora implorando —volta, volta lá. Ela te quer. Ela te precisa. — ele então volta. Sozinho. Mais sorridente, mais interessante, mais interessado.
         Descobriram juntos os encantos dos encontros apaixonados.  Tudo se encaixava. Não, não era fácil tudo se encaixar. Era preciso forçar. Era preciso pensar muito. Ninguém conhece o tamanho do abismo entre as classes sociais, a não ser que você se apaixone por alguém que não é da sua. A paixão inicial azeita, cega, e tudo nessa miopia parece num primeiro momento se encaixar. Mas com o tempo vai ficando difícil descer de patamar. Subir era impossível. Cabia a ele descer. Não há elevador, escadas, nada. Apenas artifícios dolorosos. Tudo foi ficando complicado com o avanço do relacionamento. Ela ainda dependia da merrequinha. Ele era açoitado com o escárnio. Foi ficando cansativo transpor o abismo. Ele chegou um dia, exausto, e disse que não dava mais. Ela chorou. Ele então percebeu que a lágrima só escorria no olho direito. Era estranho e encantador. Tudo nela ainda o seduzia. Mas o coração agora tinha cérebro. Maldito cérebro que decidiu fazer os demais membros pensarem. A razão nocauteou a emoção. Medonho vê-la chorando apenas do lado direito. Curioso. Mas afastou-se. O encanto foi virando bizarrice. Duro de entender. Não entendeu. Partiu para estudar na capital. Ela ficou.
         Depois da morte da mãe, o pai cada vez mais álcool que gente, não dava a mínima para ela e para ninguém. Cada irmão se ajeitou, ou não. Foram se afundando mais no desajeito da vida. Ela ouviu dizer que a merrequinha na capital era mais gorda. Partiu para lá. Ele não fazia mais parte da vida dela. Ninguém mais fazia parte da vida dela. Nenhum olhar cravado no olhar. Mas o olho direito chorava sempre. Chorava de tristeza, desencanto pela vida. Chorava pela falta de coragem de fazer algo drástico. Só o olho direito, sempre. No esquerdo apenas ardência.
         Cotidiano violento. Trabalho duro. Nada diferente da pseudocalma do interior. Movimento mecânico. Movimento sociológico. Movimento político. Tudo em movimento. O assalto. O segundo assalto. Estupro. Passou na frente da boca, essa era de fumo. Quantas bocas nos tentam engolir durante uma vida? Ela passava. Era por ali. Hora e lugar errado. A bala entrou no peito. Coração, mais cérebro que coração. Não teve tempo de sentir a dor. O sangue aflorou. Corine partiu para a certeza/incerteza da eternidade.
         O corpo sobre a fria mesa para a autópsia. Era preciso dizer como foi o tiro. O calibre. A direção. Estatística. Cumprimento de dever do estado e do profissional em volta do corpo inerte e sereno. Corpo agreste que tentou a vida e a morte na cidade grande. Corpo bonito. Ele reparou. Algo cintilou na memória. Ele a conhecia. Ela a beijou em tempos idos. Ele lembrou. O choro. O choro apenas no olho direito. Curiosidade reaguçada. Encanto e bizarrice. Não soube definir. O olho que não chorava, ali diante do seu bisturi. Sozinho. Resolveu desvendar o mistério. Lá fora tempestade.
         Tirou com jeito. Dominava bem seu ofício. Abaixo do olho esquerdo a pedra. Parecia um cálculo renal. Mas estava abaixo do olho aquele corpo mineral. Resultado de tantas lágrimas. Ausência de eletricidade. Tudo escuro. O mineral brilhava. Iluminava. Raios partiam da pequena pedra em direção às lâmpadas. Tudo aceso na escuridão da cidade. A pedra debaixo do olho era fonte de uma energia diferente.  Levou para casa e guardou para si.
         Vinte anos depois o novo mineral foi estudado. Corinita, ele o batizou. Mas nunca revelou onde havia encontrado. Diversas hipóteses levantadas, mas somente ele conheceu a força das lágrimas reprimidas, concretamente.
        
        
 
Cláudio Antonio Mendes
Enviado por Cláudio Antonio Mendes em 01/12/2018
Alterado em 02/12/2018
Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Site do Escritor criado por Recanto das Letras
Tweet
DECALOGIAS POÉTICAS Cláudio Antonio Mendes R$21,00 O HOMEM & SUAS PERDAS Cláudio Antonio Mendes R$20,00 UNI VERSOS Cláudio Antonio Mendes R$20,00 VERSOS INFECTANTES: (MÓ)MENTOS DE UMA PANDEMI... Cláudio Antonio Mendes R$25,00